O papagaio que deu nome a Aracaju: história, espécies e cultura
Foto: acervo Guia de Sergipe

O papagaio que deu nome a Aracaju: história, espécies e cultura

12 de junho de 202612 min de leituraPor Redação Guia de Sergipe

Antes de qualquer rua ser traçada, papagaios pousavam nos cajueiros da ribanceira do Rio Sergipe. Conheça a espécie que nomeou a capital e a história do pássaro mais famoso do Brasil.

Aracaju, a cidade dos cajueiros dos papagaios

Todo visitante que chega a Aracaju passa pela Avenida Ivo do Prado sem saber que está pisando na ribanceira onde tudo começou. Antes de ser avenida, aquele trecho às margens do Rio Sergipe era uma fila contínua de cajueiros nativos. Papagaios pousavam nos galhos para comer os frutos, descansavam nas copas e enchiam a manhã com seus gritos. Os povos indígenas que habitavam a região chamavam o lugar de ará-acayú: o cajueiro dos papagaios.

Em 1901, o linguista Teodoro Fernandes Sampaio registrou a etimologia em O Tupi na Geographia Nacional, obra de referência sobre topônimos brasileiros: "Ará-acayú, o cajueiro dos papagaios. Sergipe." A Lei Municipal nº 6.242, sancionada em novembro de 2025, reafirmou esse vínculo ao declarar o cajueiro árvore símbolo de Aracaju, citando explicitamente que "ará" significa papagaio e "acaiú", o fruto do cajueiro.

Este artigo conta a história do animal que nomeia a capital sergipana, da espécie que habitava aquela ribanceira às psitacídeas que ainda vivem no estado hoje.

O que "ará" significa em tupi

Em tupi-guarani, ará é o nome genérico para psitacídeos de médio porte, os papagaios. A palavra "arara" é um aumentativo formado por reduplicação, "ara-ara", que significa literalmente o ará grande. Araras são, portanto, papagaios grandes: quatro a cinco vezes maiores que os papagaios comuns, distinção que reflete com precisão a biologia das espécies.

O "ará" percorre dezenas de topônimos brasileiros. Araras (SP), Araruama (RJ), Araraquara (SP), Araripina (PE) e até o estado do Ceará carregam a palavra. Teodoro Sampaio decompõe Ceará como "cemo-ará", o papagaio que parte ou o papagaio da fonte. O Brasil inteiro foi marcado pela presença desses pássaros antes mesmo de ter um nome definitivo.

A espécie que habitava os cajueiros originais

A espécie mais provável que pousava nos cajueiros da ribanceira do Rio Sergipe é o papagaio-do-mangue (Amazona amazonica), também chamado de curica ou papagaio-de-asa-laranja. O nome popular já revela o habitat: manguezais e bordas florestais costeiras, exatamente o ambiente que caracterizava a região antes da fundação de Aracaju.

Com 33 cm de comprimento e plumagem predominantemente verde, o papagaio-do-mangue se destaca em voo pelas penas alaranjadas nas asas e na cauda. Ocorre em todo o litoral brasileiro do Nordeste até o norte do Paraná. Alimenta-se de frutos, sementes e flores, tornando os cajueiros nativos um destino natural para seus bandos ao amanhecer e ao entardecer.

O comportamento gregário reforça a hipótese: o papagaio-do-mangue vive em bandos ruidosos e forma dormitórios coletivos em árvores altas. Uma fila de cajueiros à beira do rio era exatamente o tipo de abrigo e fonte de alimento que atrairia bandos inteiros ao longo dos dias, criando uma cena marcante o suficiente para que os indígenas nomeassem o lugar por eles.

Os psitacídeos nativos de Sergipe

Sergipe abriga ou abrigou historicamente quatro espécies principais de psitacídeos, cada uma com características e níveis de ameaça distintos.

O papagaio-do-mangue (Amazona amazonica) é o mais comum no litoral e nos manguezais. Classificado como "pouco preocupante" pela IUCN, ainda ocorre em Sergipe, embora o tráfico tenha reduzido significativamente as populações silvestres nas últimas décadas.

O papagaio-verdadeiro (Amazona aestiva) é a espécie do interior, da caatinga e do cerrado. Classificado como "quase ameaçado" pela IUCN, é o papagaio mais famoso do Brasil: capaz de aprender vocabulário comparável ao de uma criança de três a cinco anos e de viver até 80 anos em cativeiro. Ocorre nos municípios do sertão sergipano.

O papagaio-chauá (Amazona rhodocorytha) é a espécie mais ameaçada com ocorrência em Sergipe, classificada como "em perigo" pela IUCN e "vulnerável" pelo ICMBio. Endêmico da Mata Atlântica, ocorre em grupos isolados no estado. Em janeiro de 2025, vinte papagaios-chauá foram reintroduzidos em uma reserva no sul de Alagoas, estado vizinho, após décadas de extinção local. O programa prevê os primeiros filhotes silvestres para 2027.

O periquitão-maracanã (Psittacara leucophthalmus) é o psitacídeo mais comum e adaptável, presente em toda a extensão do Brasil. Forma bandos barulhentos em áreas urbanas e rurais e é uma das poucas espécies que se adaptou bem à presença humana.

O Brasil que foi "terra dos papagaios"

Em 1500, na primeira carta escrita sobre o Brasil, Pero Vaz de Caminha descreveu para o rei D. Manuel papagaios que os indígenas traziam ao encontro dos portugueses: "papagaios vermelhos muito grandes e formosos, e dois verdes pequeninos". A imagem ficou tão impressa no imaginário europeu que, antes de receber o nome definitivo, o território foi chamado por cartógrafos e navegadores de Terra dos Papagaios.

Em 1502, o Planisfério de Cantino, o mapa mais antigo a representar o Brasil com algum detalhe geográfico, foi decorado com três papagaios pintados sobre a costa brasileira. O mapa foi encomendado pelo Duque de Ferrara através de um espião em Lisboa, e os papagaios eram o símbolo mais reconhecível do novo território.

O valor econômico do animal era considerável na Europa do século XVI. Um papagaio valia 226 réis em Lisboa, o equivalente a cerca de 28% do soldo mensal de um soldado. Em 1511, a nau Bretoa transportou 15 papagaios e 22 periquitos em seu carregamento. O navio francês Pélerine chegou a transportar 600 papagaios em uma única viagem, cada um avaliado em seis ducados.

O papagaio que entrou na filosofia europeia

Durante o domínio holandês no Nordeste brasileiro (1637-1654), o governador Johan Maurits van Nassau-Siegen possuía um papagaio célebre por formular perguntas e respostas consideradas extraordinárias para um animal. O caso foi documentado e chegou ao conhecimento de William Temple, que o relatou ao filósofo inglês John Locke.

Locke citou o papagaio de Nassau em seu Ensaio sobre o Entendimento Humano (1690) como exemplo no debate sobre a fronteira entre razão animal e humana. Um papagaio do Nordeste brasileiro entrou, assim, em um dos textos fundadores da filosofia moderna ocidental. A passagem é estudada até hoje em cursos de filosofia da mente ao redor do mundo.

O paradoxo colonial: amado e perseguido

Os colonizadores europeus viveram uma relação contraditória com o papagaio. Ao mesmo tempo em que o admiravam como maravilha do Novo Mundo e o levavam para as cortes europeias como presente para nobres e reis, o perseguiam como praga nas roças.

Fernão Cardim descreveu-os no século XVI como "infinitas, mais que gralhas" que "destroem as milharadas". Em 1798, a câmara de Fortaleza decretou que cada lavrador deveria apresentar trinta cabeças de papagaios, maracanãs e periquitos por ano, sob pena de prisão.

Essa ambiguidade colonial chegou até os lares nordestinos. A tradição de manter papagaios domésticos no poleiro da varanda, ensinando-os a falar e passando-os de geração em geração, é parte do cotidiano nordestino desde o período colonial. No imaginário da região, o papagaio na gaiola é imagem tão familiar quanto o pilão ou a rede. Essa mesma tradição, porém, foi uma das principais causas do declínio das populações silvestres ao longo dos séculos.

O tráfico e a lei

As aves correspondem a 80% do total de apreensões realizadas pelo Ibama no Brasil. Estimativas da RENCTAS (Rede Nacional de Combate ao Tráfico de Animais Silvestres) apontam que cerca de 38 milhões de animais são traficados por ano no país, e mais de 400 espécies de aves, aproximadamente 20% das aves nativas, são impactadas.

Em Sergipe, a Operação Rotas da Fauna de abril de 2026, realizada pela PRF e pela ADEMA, resgatou 517 animais em 9 municípios do norte sergipano: 487 aves e 30 jabutis, incluindo papagaios entre as espécies identificadas. No primeiro trimestre de 2026, o estado registrou 209 ocorrências envolvendo 1.940 animais, aumento de 90,8% em relação ao mesmo período do ano anterior.

A Lei nº 9.605/1998 (Lei de Crimes Ambientais) é clara: matar, capturar, manter em cativeiro, transportar ou comercializar espécimes da fauna silvestre sem autorização do Ibama ou ICMBio configura crime, com pena de detenção de seis meses a um ano, além de multa. Papagaios nativos do Brasil são animais silvestres protegidos. A manutenção sem a devida licença é ilegal, mesmo que o animal tenha sido adquirido de boa-fé.

Onde ver papagaios em Sergipe hoje

O Parque dos Cajueiros (nome oficial: Parque Governador Antônio Carlos Valadares), às margens do Rio Poxim em Aracaju, é o lugar mais simbólico para essa busca. Ocupa cerca de 600.000 m² e preserva cajueiros nativos, manguezais e fragmentos de Mata Atlântica urbana. A presença de cajueiros em ambiente protegido cria condições para atrair psitacídeos, especialmente o papagaio-do-mangue e o periquitão-maracanã. O parque fica na Avenida Beira Mar, de acesso público e gratuito.

A Reserva Biológica de Santa Isabel, nos municípios de Pirambu e Pacatuba, entre 35 e 70 km de Aracaju, registra mais de 200 espécies de aves e é um dos pontos de maior biodiversidade do litoral sergipano. O ambiente de restinga e manguezal é habitat natural do papagaio-do-mangue.

O Parque da Sementeira (Parque Augusto Franco), no bairro Jardins de Aracaju, registra em sua fauna a maracanã pequena, psitacídeo nativo, além de diversas outras espécies de aves. É uma opção de observação dentro da própria cidade.

O melhor horário para observar psitacídeos é sempre ao amanhecer e ao entardecer, quando os bandos voam entre os dormitórios e as áreas de alimentação. Os gritos característicos dos papagaios costumam anunciar sua presença antes mesmo de serem vistos.

O pássaro que nomeou uma capital

Poucas cidades do mundo têm o nome tão diretamente ligado a um animal e a uma planta. Aracaju é, literalmente, o lugar onde o papagaio e o cajueiro conviviam. Essa etimologia não é apenas uma curiosidade linguística: é um registro histórico do que existia naquele trecho de ribanceira antes de qualquer rua ser traçada.

O papagaio-do-mangue que pousava nos cajueiros da margem do Rio Sergipe não sabia que estava nomeando uma capital. Mas deixou sua marca em cada placa de rua, em cada documento oficial, em cada vez que alguém escreve ou fala o nome da cidade. Sergipe guarda em seu nome de capital um testemunho vivo da fauna que habitava o litoral nordestino antes da colonização, e um convite para conhecer e proteger os papagaios que ainda podem ser encontrados no estado hoje.