
Artesanato sergipano: o que comprar, onde encontrar e as histórias por trás de cada peça
Da renda irlandesa de Divina Pastora à cerâmica do São Francisco, Sergipe tem um artesanato vivo que conta a história do seu povo. Saiba onde encontrar e o que levar.
Tem coisa que souvenir de loja de aeroporto não consegue substituir. O artesanato de Sergipe é desse tipo: cada peça tem uma história por trás, um nome, uma técnica que atravessou gerações. Bordados feitos à mão em Tobias Barreto, renda que o IPHAN reconheceu como patrimônio nacional, cerâmica moldada com barro do Rio São Francisco. Quem visita Sergipe e não para para entender o artesanato do estado está passando ao lado de uma das partes mais ricas da cultura local.
A renda irlandesa de Divina Pastora
De todas as formas de artesanato de Sergipe, a renda irlandesa de Divina Pastora é a que tem o reconhecimento mais formal: em 2008, o IPHAN registrou o "Modo de fazer renda irlandesa" como Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil. Em 2019, o estado de Sergipe reforçou esse reconhecimento com uma lei própria. É o único patrimônio imaterial sergipano com registro no IPHAN.
A técnica chegou da Europa no século XVII e foi sendo adaptada pelas mãos das artesãs do Vale do Cotinguiba. O processo começa num desenho planejado em papel, com fios de seda ou algodão branco costurados sobre uma renda, combinando diferentes pontos num trabalho que pode levar dias para uma única peça. O conhecimento é passado de mestras para aprendizes, quase sempre dentro da própria família.
Divina Pastora fica a menos de 40 km de Aracaju e a visita à cidade é uma experiência à parte: dá pra ver as artesãs trabalhando, entender o processo e comprar direto de quem faz. Laranjeiras, no mesmo vale, também tem produção de renda irlandesa.
O bordado que virou capital nacional
Tobias Barreto, no sul do estado, carrega o título informal de capital nacional do bordado, e não é exagero. A tradição veio se consolidando desde os anos 1970 e hoje movimenta a economia local de forma significativa. O bordado Richelieu, de origem francesa e identificado pelo efeito vazado com detalhes delicados, é o mais característico da região.
A produção funciona em cadeia: desenhadores traçam os padrões, estampadores transferem para o tecido, e as bordadeiras executam o trabalho com pontos de Cruz, Cheio, Matiz, Crivo e Labirinto em cambraia, linho ou algodão. O resultado são toalhas, jogos de cama, roupas e peças de mesa e banho que saem daqui para o Brasil inteiro.
A Feira da Coruja em Tobias Barreto acontece nas madrugadas de segunda-feira e é o evento mais característico da cidade: bordados, cerâmica, pintura e vestuário vendidos num ambiente que mistura comércio popular e tradição cultural. Quem tiver roteiro flexível vale a pena ir.
A cerâmica do São Francisco
Santana do São Francisco, a 125 km de Aracaju, recebeu em 2022 o título oficial de Capital da Cerâmica Artesanal de Sergipe. O número diz tudo: estima-se que 70% dos moradores trabalham em alguma etapa da cadeia produtiva, com cerca de 600 artesãos distribuídos em 40 ateliês e pequenas fábricas.
O barro vem das margens do Rio São Francisco e passa por extração, transporte, modelagem, queima e pintura antes de virar produto final. Os nomes que deram fama à cerâmica local, como Beto Pezão e Wilson Capilé, têm reconhecimento internacional. As peças mais procuradas são panelas de barro, moringas e filtros de água, além de esculturas de animais do sertão e figuras decorativas.
Uma visita a Santana do São Francisco é diferente de comprar cerâmica num mercado: você vê o processo do início ao fim e pode encomendar peças diretamente nos ateliês. O governo de Sergipe trabalha para obter a Indicação Geográfica da cerâmica local, o que deve dar ainda mais visibilidade à produção nos próximos anos.
Palha de ouricuri e os materiais da Caatinga
A palmeira ouricurizeiro, que cresce na Caatinga sergipana, fornece a matéria-prima para um dos artesanatos mais singulares do estado. As folhas são colhidas e secas ao sol por até quatro dias até virarem fibra flexível e resistente, que as artesãs transformam em chapéus, cestos, bolsas, abanos e objetos decorativos.
Os maiores polos de palha de ouricuri no estado são Brejo Grande, Pirambu e Pacatuba. Em Pirambu, a comunidade quilombola de Alagamar mantém viva a técnica com método ancestral, passando o conhecimento entre as gerações mais velhas e as mais jovens. Quem visita a base do Projeto Tamar em Pirambu pode encontrar peças de palha à venda na própria comunidade.
Outros materiais regionais que aparecem no artesanato sergipano: sementes de espécies nativas usadas em bijuterias, couro curtido no sertão refletindo a cultura do vaqueiro, e madeiras como cedro e amburana nas esculturas sacras de Laranjeiras.
Bonecas de pano e esculturas em madeira
Nossa Senhora das Dores, no agreste, tem uma produção de bonecas de pano que não existe em outro lugar do estado. Um grupo de mulheres mais velhas cria bonecos que retratam personagens do cotidiano nordestino: Lampião, Maria Bonita, o vaqueiro, o casal de noivos. São peças feitas à mão em tamanhos variados, com aquele acabamento que só vem de quem faz isso há décadas.
Em Laranjeiras, o artesão Ademar Lima, conhecido como Demar, cria esculturas sacras em cedro e amburana que refletem a arte sacra nordestina com riqueza de detalhes. O trabalho em madeira nativa é mais raro e por isso mais valioso para quem busca uma peça realmente única.
Onde comprar artesanato em Aracaju
Para quem está na capital e quer concentrar as compras num só lugar, o Centro de Turismo de Aracaju, na Praça Olímpio Campos, é o ponto de partida. O prédio histórico da antiga Escola Normal, inaugurado em 1911, abriga 29 boxes de artesãos e um memorial com obras de mais de 30 artistas sergipanos. É possível ver rendeiras trabalhando no local, o que já transforma a compra numa experiência cultural. A Emsetur gerencia o espaço e o posto de informações turísticas fica no mesmo endereço.
Os mercados do centro histórico, a poucos metros entre si, são outra boa opção: o Mercado Thales Ferraz, o Mercado Antônio Franco e o Mercado Maria Virgínia Leite Franco funcionam de segunda a sábado das 6h às 16h45 e aos domingos até o meio-dia. São mercados de bairro com preços populares, menos turísticos que o Centro de Turismo, e justamente por isso têm aquele charme de compra autêntica.
Na Orla de Atalaia, a Feira do Turista reúne artesanatos, lembranças, roupas e acessórios num espaço permanente próximo aos hotéis. Para quem quer praticidade sem sair da área da orla, é a opção mais acessível. Na Orlinha do Bairro Industrial, o Centro de Artesanato Chica Chaves tem 16 boxes com bordados, tapetes, bijuterias e objetos de decoração.
O que vale levar na bagagem
Depende do que você está buscando. Para uma peça com história e unicidade, a renda irlandesa de Divina Pastora é insubstituível. Uma moringa ou panela de barro de Santana do São Francisco é funcional, bonita e conta uma história toda vez que alguém pergunta a origem. Um chapéu de palha de ouricuri é leve na mala e muito característico da Caatinga sergipana. Para presentes, os bordados de Tobias Barreto em jogos de cama ou toalhas de mesa têm qualidade que se percebe na textura.
Os preços variam bastante conforme o tipo de peça, a complexidade do trabalho e onde você compra. Diretamente com os artesãos ou nas feiras municipais os valores tendem a ser bem menores que nas lojas turísticas. Vale sempre conversar com quem faz: além do preço justo, você sai com a história da peça, e isso não tem como comprar em outro lugar.
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